"Procuremos
entender a vocação própria dos eleitos, os quais não são eleitos porque
creram, mas são eleitos para que cheguem a crer. O próprio Senhor
revela a existência desta classe de vocação ao dizer: 'Não fostes vós
que me escolhestes, mas fui eu quem vos escolhi' (Jo.15.16). Pois, se
fossem eleitos porque creram, tê-lo-iam escolhido antes ao crer nele e
assim mereceram ser eleitos. Evita, porém, esta interpretação aquele que
diz: 'Não fostes vós que me escolhestes'.
Não
há dúvida que eles também o escolheram, quando nele acreditaram. Daí o
ter ele dito: 'Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos
escolhi', não porque não o escolheram para ser escolhidos, mas para que o
escolhessem, ele os escolheu. Isso porque a misericórdia se lhes
antecipou segundo a graça, não segundo uma dívida. Portanto, retirou-os
do mundo quando ele vivia no mundo, mas já eram eleitos em si mesmos
antes da criação do mundo.
Esta
é a imutável verdade da predestinação da graça. Pois, o que quis dizer o
Apóstolo: 'Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo?' (Ef.1.4).
Com efeito, se de fato está escrito que Deus soube de antemão os que
haveriam de crer, e não que os haveria de fazer que cressem, o Filho
fala contra esta presciência ao dizer: 'Não fostes vós que me
escolhestes, mas fui eu que vos escolhi'. Isto daria a entender que Deus
sabia de antemão que eles o escolheriam para merecerem ser escolhidos
por ele.
Consequentemente,
foram escolhidos antes da criação do mundo mediante a predestinação na
qual Deus sabia de antemão todas as suas futuras obras, mas são
retirados do mundo com a vocação com que Deus cumpriu o que predestinou.
Pois, os que predestinou, também os chamou com a vocação segundo seu
desígnio. Chamou os que predestinou e não a outros, justificou os que
assim chamou e não a outros; predestinou os que chamou, justificou e
glorificou (Rm.8.30) e não a outros com a consecução daquele fim que não
tem fim.
Portanto,
Deus escolheu os crentes, mas para que o sejam e não porque já o eram.
Diz o apóstolo Tiago: 'Não escolheu Deus os pobres em bens deste mundo
para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o
amam?' (Tg.2.5). Portanto, ao escolher, fá-los ricos na fé, assim como
herdeiros do Reino. Pois, com razão, se diz que Deus escolheu nos que
crêem aquilo pelo qual os escolheu para neles realizá-lo.
Pergunto:
quem ouvir o Senhor, que diz: 'Não fostes vós que me escolhestes, mas
fui eu que vos escolhi', terá atrevimento de dizer que os homens têm fé
para ser escolhidos, quando a verdade é que são escolhidos para crer? A
não ser que se ponham contra a sentença da Verdade e digam que
escolheram antes a Cristo aqueles aos quais ele disse: 'Não fostes vós
que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi'."
Bibliografia: A Graça II (A Predestinação dos Santos), Agostinho de Hipona, Editora Paulus

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